Sucesso e fracasso: você está dando o devido valor à sua caminhada pessoal e profissional?

Qualquer pessoa pode ter sucesso. Até porque a palavra sucesso é relativa. O que é sucesso? E o que é fracasso? Com essa provocação, a autora Flávia Lippi deu vida à obra Sucesso e fracasso – 100 perguntas para fortalecer sua caminhada pessoal ou profissional

Palestrante internacional, consultora em saúde mental, emocional e comportamental, educadora e escritora, Flávia é fundadora do Instituto de Desenvolvimento Humano Lippi (IDHL), ONG sem fins lucrativos que leva saúde mental para alta performance em ambientes profissionais, e criadora da metodologia A Equação. Já escreveu 10 livros, é especialista em neurociência comportamental e designer de processos e comunidades colaborativas. Tem mais de 25 anos de experiência no mundo corporativo, principalmente com C-level. 

Ela alerta que sucesso não se traduz por caminhos lindos, floridos e céu azul por todo o tempo da caminhada. Acreditar que tropeçar faz parte – e é, inclusive, um recurso para avançar – é muito mais produtivo. Quem fracassa tem mais chances de chegar aonde deseja.

Fracasso significa tentativa. E, quando alguém tenta muitas vezes, se torna excelente naquilo que está repetindo. Sucesso é uma questão de bons hábitos que se tornam excelentes comportamentos. E é sobre este tema que a autora conversou com Raul Candeloro, diretor da VendaMais. Confira a seguir insights poderosos para o sucesso. E para fazer as pazes com os seus “ditos” fracassos.

Fale um pouquinho sobre seu livro Sucesso e Fracasso. Sobre o que trata o livro e por que escrevê-lo?

Quando decidi escrever o livro Sucesso e fracasso minha intenção principal foi a de criar espaços de pensamento de maneira simples. Seguindo a linha de livros de caixinha, este é o nono que publico, trouxe 100 perguntas, insights, dicas ou pensamentos com a intenção de fortalecer as relações pessoais e profissionais. As provocações sobre fracasso e sucessos, além de direcionamentos de como deixar as sensações que ambos os sentimentos provocam, têm o objetivo de desmitificar o que é fracasso e sucesso. Eu tenho escutado muita gente falando sobre os ideais que envolvem sucesso e fracasso. É preocupante como algumas pessoas vivem uma busca constante pelo sucesso e de uma forma geral precisam de um novo sentido para a vida.

Elas têm convicções do que representam fracasso e uma definição mirabolante do que seria sucesso. Ora, pegam o sucesso e o colocam num patamar inalcançável, principalmente dependendo da idade. Nomeiam como “algo espetacular, absurdamente difícil de encaixar na realidade”. Eu já escutei isso por inúmeras vezes e, por isso mesmo, trouxe as provocações do Sucesso e fracasso para instigar os meus leitores. Quero tirar essas pessoas do lugar de vítima desse fracasso ou do inalcançável sucesso. Quero mostrar que elas são as únicas responsáveis pelas suas decisões de vida e carreira. E isso tem a ver com as perspectivas de mundo de cada um, e não do que as timelines te cobram como sucesso ou fracasso.

Você provavelmente tem uma palestra sobre o mesmo assunto. Quais as principais dicas que dá sobre isso nas apresentações?

Sim, tenho uma palestra presencial sobre o assunto – até porque é muito atual e recebo muitas demandas sobre o tema. O meu objetivo na palestra (assim como no livro) é o de desmistificar o conceito que muitas pessoas ainda têm sobre sucesso e fracasso. Particularmente, acredito que grande parte dessa desmistificação vem a partir do autoconhecimento. Sim. Quando você se conhece e sabe das suas limitações e fortalezas, é muito mais difícil às pessoas te manipularem ou decidirem qual o caminho melhor para a sua vida e carreira.

Você já pensou, por exemplo, que o erro (que a sociedade tanto condena) é uma forma de experiência? Isso mesmo. Com as tentativas, chegar ao resultado que você espera é muito mais assertivo. O grande problema é que não fomos criados para errar e boa parte da sociedade não sabe lidar com os erros ou enxergar motivações de crescimento. Dessa forma, todo o processo criativo de uma pessoa é minado e todas as possíveis possibilidades de alcançar objetivos propostos são anuladas. Sucesso não se trata de números de idealizações, títulos acadêmicos colecionados nas gavetas de casa ou patamar de cargo que a pessoa planejou. É muito mais (e precisa ser).

Sucesso é bem mais amplo. Como a pessoa se olha, entende suas próprias vontades e sabe sobre aquilo que gera felicidade, é o maior sucesso que alguém pode aspirar. Uma pessoa com esse entendimento alcançou a felicidade. Viu? É bem mais simples do que a grande maioria pensa, né? E é essa simplicidade que as pessoas precisam buscar num universo tão diverso como o atual. Entende?

Você poderia nos dar algum exemplo prático extraído da sua palestra ou livro que exemplifique melhor seus principais conceitos, para que nossos leitores conheçam melhor seu trabalho?

Eu escolhi algumas dicas a seguir que talvez possam ilustrar como você pode dar um salto em sua perspectiva de carreira.

  1. Você cumpre o que promete em detalhes? Hora combinada, assunto combinado e entrega combinada? Se não, você precisa desenvolver a sua confiabilidade. Como fará isso a partir de hoje?
  2. A falta de conhecimento de quais emoções dominam suas decisões tem efeitos devastadores em situações de pressão, podendo ocasionar a desistência. Você já desistiu por causa de suas emoções?
  3. Talento é inversamente proporcional à determinação. Quanto mais talento, menos determinação. Péssima notícia? Não. Esclarecedora. É que quanto mais talento, mais preguiçoso a gente fica em desafiar algo que temos certeza que sabemos fazer. Você tem determinação o suficiente?

Quais são os erros mais comuns que você vê as empresas e as pessoas cometendo em relação a essas questões do Fracasso e do Sucesso?

Então, acredito que o grande erro é a condenação do erro (risos). Imagine você, quantas tentativas existem em cada etapa que saiu errada? E não estou sendo demagoga ou permissiva ao afirmar isso. Errar é o processo para o sucesso. São pequenos sucessos que testam suas ideias antes de alcançar o objetivo final. Erro é um sucesso com data marcada.

Você tem ideia de quantos “não” uma criança recebe e que são desnecessários: “Não venha brincar com essa bola aqui!”. E quantos “sim” proporcionalmente desnecessários ela também escuta? E isso vai ocorrendo durante toda a vida. Isso mina a possibilidade de considerar o erro como estratégia e experimentação. Por outro lado, pessoas que são educadas a achar que a posição superior, o objeto de luxo e o local cravado no mapa são determinantes para o sucesso, se torna limitada (e condicionada) a pensar sucesso somente dessa forma. Assim todas as tentativas serão barradas – até porque elas não querem ou não podem fracassar. E o resultado para a vida pessoal de quem não se permite frustrar, pode vir em forma de doenças físicas, emocionais e comportamentais, impactando fortemente na perda de performance.

Dessa lista de erros, qual você considera o mais grave? Por quê?

O erro mais grave é considerar o erro um erro. Não quero ser repetitiva ou que você me enxergue assim, mas quebrar essas amarras é muito importante. Outro fato igualmente grave é a falta de generosidade. Algumas pessoas se esqueceram de olhar para o outro e não são capazes de compreender o potencial da convivência. A troca de conhecimento, de perspectivas de vida e trabalho chegam como injeção de ânimo natural para qualquer caminhada. Mas, hoje, grande parte da sociedade tem sido condicionada à individualidade extrema e não olha com generosidade para o outro. Muito menos para o colega de trabalho que pode (com a troca de experiência) te ajudar com aquela demanda que tem tirado o seu sono. Por isso mesmo, tenho certeza que a generosidade está muito ligada à plenitude do sucesso.

Na VM somos bem focados em Vendas e na área de negócios/empresarial. Imagine que um empresário ou vendedor procurando melhorar seus resultados nessa área. Por onde começar? De maneira sucinta e objetiva, quais as principais recomendações?

Eu não acredito em maus profissionais. Acredito em pessoas que não são ouvidas e compreendidas. Muitos líderes e liderados não são escutados e, consequentemente, suas necessidades não são atendidas. No caso de vendas, por exemplo, o ato de escutar é imprescindível. Aquele profissional que está atento ao ouvir, trocar interesses e se comunicar venderá exatamente aquilo que o cliente necessita. Isso é generosidade. Entende? Você não quer empurrar um produto ou serviço para o seu cliente. Você quer atender as necessidades e expectativas daquela pessoa. Por isso mesmo, entender o poder da gentileza e da vulnerabilidade é um marco de sucesso. E quando falo em vulnerabilidade não estou usando o termo no sentido de exposição de mazelas. Voltando às vendas, quando você se liberta da função de bater meta e começa a enxergar todo o cenário que envolve uma venda, é possível navegar em si mesmo e enxergar a necessidade do outro e, portanto, bater as metas por outro motivo, a venda genuína.

Vou trazer um exemplo para materializar tudo isso que estou te falando e te ajudar a entender como a generosidade em questão não se trata de mensagem de good vibe. Tenho o hábito de conversar com estranhos. Gosto de saber o que os motiva, como vivem, para que vivem, porque fazem de uma maneira e de outra. Isso me traz imensos aprendizados.

Recentemente ocorreu uma situação comigo que fala muito sobre essa generosidade na venda. Tive um problema em casa e precisei acionar a Porto Seguro (seguradora) para um seguro do imóvel. Recebi um funcionário da empresa que me encantou e falou sobre como era trabalhar na seguradora. “Eles são pessoas honestas. O que é justo para nós e para o cliente é aquilo que eles acreditam. Em 7 anos que trabalho na empresa, nunca vi uma injustiça comigo ou com o cliente”. Ali, ele garantiu uma venda, já que tudo que ele relatou são valores importantes para mim.

Outro exemplo. Em Belo Horizonte tem uma doceria maravilhosa, a Fany Bombons. Certo dia, pela manhã, fui lá tomar um café e perguntei para uma das funcionárias o que levava ela a acordar todas as manhãs para trabalhar: “Eu sou uma das funcionárias mais novas e tenho 7 anos. Tem funcionários aqui com 30 anos, que entrou junto com o primeiro bombom. O que me faz ficar na empresa é saber que eles (os proprietários) são corretos. O chocolate é o melhor chocolate. A farinha é a melhor farinha. Nada que sai daqui não tem a qualidade que eles pregam, além da generosidade do dos donos”.

Sabe o que veio à minha cabeça? Eu continuarei uma cliente fiel à loja e ao bombom da Fany. Eu sei que os valores dos donos estão sendo passados, eu sei que os donos são leais, sinceros e respeitosos. Viu como a generosidade cria uma relação clara e direta com o cliente/venda? Enquanto os vendedores não entenderem a importância disso e continuarem vendendo algo apenas por vender ou para bater meta, dificilmente as pessoas acreditarão naquele profissional. É preciso ser leal aos valores básicos de convivência harmoniosa. Gentileza, generosidade e verdade!

Falando um pouco do seu trabalho como consultora e palestrante agora. Que tipo de empresa geralmente contrata seus serviços? O que busca?

Vamos lá. A Organização Mundial de Saúde (OMS), nos últimos dez anos, mostrou que os quadros de depressão aumentaram 18,4% – percentual que equivale a 322 milhões de indivíduos – sendo que o percentual equivale a 4,4% da população mundial. Considerando os aspectos brasileiros, esse índice chega a 5,8%. O Brasil também lidera os casos referentes aos transtornos de ansiedade, que chega a 9,3% indivíduos. As mulheres são as mais afetadas e os casos de ansiedade afetam 7,7%. Quanto aos homens, esse número é de 3,6%. Alarmantes, não é mesmo?

Sabe o que isso significa? As pessoas estão adoecendo, as empresas estão perdendo a lucratividade e há um desequilíbrio em todo o ambiente de trabalho. Eu sou especialista em saúde mental, comportamental e emocional. Meu trabalho é trazer o equilíbrio individual para impactar também o coletivo, consequentemente, isso gera todo um equilíbrio ao meio corporativo. Por isso mesmo, meu trabalho é praticável a qualquer porte de empresa. Mas as multinacionais, ou empresas maiores, pelo diagnóstico atuante dos setores de recursos humanos, representam a grande parte dos meus clientes. Atendo grandes executivos e CEOs. O meu papel é ajudar cada um a entender como o equilíbrio tem atuação direta ao aumento de performance no trabalho de si mesmo e de seus colaboradores.

Por outro lado, que tipo de evento/treinamento/consultoria não é adequado para você? Ou seja, que tipo de problemas/situações/treinamentos você geralmente prefere não aceitar ou indicar para algum colega?

Eu só não aceito aquilo que não sei fazer (risos). Eu aceito tudo que passa pelo comportamento humano e gera aumento de autoconhecimento, aumento de entendimento do impacto de ser quem é em si mesmo e em sua comunidade e o que fazer para aumentar a performance de cada um e de sua empresa sem perder o equilíbrio essencial para viver em plenitude.

Com tanta experiência na área, quais dicas ou informações você vê sendo dadas pela mídia sobre alguns dos temas que você aborda com frequência com as quais claramente não concorda?

Eu fico muito incomodada quando vejo pessoas que não são capacitadas para falar sobre algum tema engrossando discurso na timeline. Essas pessoas “surfam” nas ondas da moda e querem se posicionar. Elas não são especialistas e acabam cometendo erros graves.

Vamos a um exemplo recente. Já vi muita gente usando o ponto de vista sobre vulnerabilidade de Brené Brown, a partir do que é apresentado no documentário do Netflix ou no TEDx. Contudo, essas pessoas, por surfarem a ONDA, nunca leram o livro dela ou não entenderam. Aí, a pessoa vai para a plataforma on-line e começa a bater. Mas, espera. No livro, Brené deixa claro que não defende a exposição. Entretanto, a pessoa quer mídia e acaba cometendo equívocos. Brené Brown, no livro O poder da vulnerabilidade, fala sobre coragem e não expor suas dores e mazelas em sua timeline.

Dias desses, uma professora e palestrante (que estava sendo ovacionada) perdeu toda a credibilidade que vinha adquirindo. Ela se apresentava como pós-doutora em Harvard. Mas uma jornalista desconfiou do título e investigou. A mentira foi revelada e tudo que ela estudava, que era magnífico e genuíno, independente do título, foi jogado por terra.

Isso é uma das coisas que me preocupa sobre as relações que envolvem os conceitos de sucesso e fracasso, sabe? O que a pessoa precisa entender é que ela já é amada pelo ser humano que é e todo mundo tem interesse pelo que é falado por ela, desde que seja de forma genuína. Você já é uma potência e saber disso te qualifica ao falar de suas experiências, elas sim foram vividas e você mais que ninguém tem uma lição de vida para passar por causa disso.

Algum último comentário que queira fazer para os leitores da VendaMais?

Todas as pessoas são vendedoras. Vender é o ato humano e generoso de oferecer ao outro algo que você tem e que ele não tem. Sempre tem alguém precisando de algo que a gente tem. Pense nisso e como a generosidade pode te ajudar em todo o seu processo.

Leia também: