Faça do seu trabalho uma paixão

Descubra qual é sua verdadeira paixão, sua missão pessoal e profissional e determine os rumos de sua vida e de sua carreira

Por Karen Jardzwski

Há pessoas que colocam as melhores roupas, abrem um enorme sorriso e com um brilho intenso nos olhos, saem cantarolando, ansiosos para encontrar sua paixão. E o motivo de tanta alegria não tem nome de homem ou mulher, não se trata de namorado, amante ou esposa. O brilho no olhar, o sorriso estampado e a expressão de felicidade são características de pessoas que são apaixonadas pelo trabalho.

A paixão faz a diferença

Em tempos de estresse, correria e busca desenfreada pelo sucesso, os profissionais que amam o que fazem são mais felizes e conseguem se diferenciar.

Para Carlos Hilsdorf, consultor e pesquisador do comportamento humano, a paixão, entendida em sua dimensão de amor intenso, é fundamental para a realização no trabalho. “As pessoas apaixonadas, movidas por Eros (amor material) e pelo entusiasmo (palavra que significa “Deus dentro de si”) conseguem colocar-se por inteiro naquilo que fazem. A paixão é um fortíssimo motivo interno que nos leva a agir, é uma das causas muito poderosa de motivação.”

Segundo o consultor, os vendedores que amam vender sentem prazer por ajudar as pessoas a enxergarem as coisas que elas ainda não viram, pensar sobre o que ainda não pensaram e tomar as melhores decisões. “Um verdadeiro vendedor é um profundo conhecedor do ser humano e seu maior prazer é viajar junto com o cliente sobre o mundo das possibilidades que tem a oferecer.”

O palestrante especialista nas áreas motivacional e comportamental, Rodrigo Cardoso, também concorda que a paixão faz a diferença. “Não importa o cargo, os apaixonados pelo que fazem melhoram a performance, a atitude e o comportamento, refletindo na produtividade e, conseqüentemente, nos resultados obtidos, tanto do profissional quanto da empresa.”

Onde e como encontrar a verdadeira paixão?

Muitas pessoas não conseguem realizar um trabalho pelo qual são apaixonadas. Algumas porque não sabem qual é sua paixão e outras por acreditar que não podem viver de uma atividade que realmente amem.

No primeiro caso, a saída é refletir sobre o que se pretende realmente fazer da vida. Assim como as empresas definem os motivos pelos quais existem e o destino que pretendem traçar, as pessoas também devem ter sua missão. E para isso é necessário rever seus valores, suas expectativas e reais desejos. Às vezes, é preciso viajar no passado, relembrar quais eram os sonhos quando criança e se perguntar se você está realizando o que projetava para sua vida.

Esse é o primeiro passo, depois vá em busca de outras respostas. Além dos tradicionais testes de aptidão e ferramentas que ajudam a descobrir as vocações, existem maneiras de encontrar na prática as paixões. Segundo o professor doutor do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia da USP, Sigmar Malvezzi, é possível descobrir as reais paixões através de experiências. “Só posso saber se gosto de algo experimentando. Por isso, tem sido muito comum nos trabalhos de orientação vocacional conversar com profissionais de diversas áreas, passar o dia em funções diferentes.” Além disso, ele também sugere que as pessoas realizem trabalhos voluntários para experimentar outras atividades.

Se enganar é um erro? 

Muitas vezes, o fato das pessoas dizerem que não sabem qual é sua verdadeira paixão não significa que elas não saibam, apenas têm dificuldade em verbalizar. “A paixão é autoevidente, basta a pessoa ver o que lhe dá verdadeiramente prazer de maneira espontânea e abundante. Basta observar qual atividade consegue fazer sem notar o tempo passar, sem sentir o peso de um desconforto extenuante”, explica Hilsdorf.

Isso é muito comum. Tem gente que sabe o que realmente gostaria de fazer, mas pensa, ou prefere achar, que não conhece essa resposta exatamente por acreditar que não pode viver de uma atividade que realmente ame.

Mas ao agir assim, as pessoas vão se enganando, levando uma vida que não condiz com o que desejam. “Prolongar a dedicação a uma atividade que não amamos e não conseguimos aprender a amar significa frustração, sofrimento e depressão. As conseqüências são representadas pelo nosso declínio nos níveis psicológico, fisiológico e profissional. Quem não busca a auto-realização caminha para o autodestruição”, diz Hilsdorf.

E como mudar? 

Faça uma análise sincera do seu grau de empenho e dedicação, o quanto de energia e tempo se dispõe a investir no que está fazendo. Liste todas as atividades que você gosta de fazer e tudo aquilo que desenvolve, mas não gosta de realizar. Onde tem mais itens? Tente lembrar das últimas vezes que falou de seu trabalho para outras pessoas, foi com empolgação ou desânimo?

Se concluir que realmente é infeliz no que faz, é importante começar a planejar mudanças. Mas preste bem atenção nesta palavra: planejamento. Não adianta “chutar o balde” de uma hora para outra e sair do emprego sem nenhum plano. É fundamental migrar de maneira planejada para outra atividade. “O melhor momento para fazer isso é enquanto estiver trabalhando, pois buscar um trabalho ou empreendimento novo quando está sem dinheiro pode fazer com que você aceite qualquer coisa para pagar as suas contas. É necessário planejar a mudança”, explica Rodrigo.

E mesmo com planejamento, prepare-se para ter persistência ao enfrentar as dificuldades de mudar. Isso levará tempo, por isso seja flexível, pois talvez você não consiga os resultados que busca rapidamente. E lembre-se de que apesar de gostar do que pretende fazer, talvez seja necessário buscar mais preparação, pedir ajuda a outras pessoas, conhecer outras áreas de atuação. Portanto, tenha cuidado e paciência para avaliar os progressos que fizer.

É possível não mudar e aprender a se apaixonar pelo que faz?

Sim. Há pessoas que não conseguem ou mesmo não desejam fazer de suas paixões uma carreira profissional, então, atuam em um trabalho que aprendem a gostar e desenvolvem outras atividades em horários diferentes. Mas, nesse caso, é importante voltar a pensar na missão e adequar o trabalho e a realização das paixões de acordo com o que se quer para a vida.

Também é muito comum pessoas dizerem que no início não gostavam de suas profissões e que, depois de algum tempo, não podem se imaginar fazendo outra coisa. Uma grande parte dessas pessoas aprendeu a descobrir o prazer e a se apaixonar por sua profissão. ?Para aprender a amar o que faz, é necessário focar no que tem de bom em sua atividade atual e tirar o foco das coisas ruins. Ao fazer, por exemplo, uma lista das coisas boas e ruins, você pode perceber que o seu emprego tem mais pontos positivos do que negativos?, diz Rodrigo.

Carlos Hilsdorf lembra que não basta amar o que se faz, mas é igualmente importante fazer o que se ama, e uma coisa está incompleta sem a outra. “Por mais que você faça o que ama sempre existirão alguns aspectos ou etapas do seu trabalho que lhe trarão menor prazer e necessitarão de maior esforço, daí a necessidade de aprender a amar o que você faz compensando o ‘sofrimento’ de fazer as partes que menos gosta naquilo que você faz porque ama.”

Uma eterna busca

Para o psicólogo Sigmar Malvezzi, cada ser humano tem sua maneira própria de realizar e encontrar suas paixões. “As pessoas investem pouco em se conhecer melhor, mas temos perfeitas condições de aprender a gostar do trabalho e encontrar sentido naquilo que faz. E muitas vezes, os nossos desejos vão mudando ao longo da vida. Por isso, é muito importante que as pessoas se conheçam mais e estejam sempre refletindo sobre o sentido da vida.”

Rodrigo Cardoso, um dos especialistas consultadas para essa matéria, tem uma história interessante. Aos 12 anos ele decidiu que seria engenheiro eletrônico, devido à curiosidade que tinha sobre as “mágicas” da eletricidade. Sua vida foi moldada por essa paixão até os 25 anos, quando se formou em Engenharia. Mas ao assistir uma palestra motivacional, mudou completamente o rumo de sua trajetória. “Naquele dia, escrevi minhas metas pessoais pela primeira vez, isso mudou os meus valores. Me apaixonei pela idéia de fazer a diferença na vida das pessoas como aquela palestra tinha feito na minha.”

Ele deixou a engenharia e passou a trabalhar como vendedor e a se dedicar à carreira de palestrante, escritor e empresário. “Hoje viajo por todo o Brasil ministrando treinamentos em empresas falando sobre atitude e comportamento. Tenho como missão fazer a diferença na vida das pessoas que participam dos meus eventos e faço isso com muito amor, com muita paixão. E com tanto trabalho sinto que estou sempre de férias, pois realmente amo o que eu faço”, finaliza.