O que um princípio das artes marciais tem a nos ensinar sobre gestão?

Por Fabio Seiti Tikazawa

Certa vez, em um dia típico do rigoroso inverno do Japão, um médico chamado Shirobei Akiyama observava a neve caindo sobre as árvores. Então notou algo interessante: enquanto os robustos e fortes galhos de uma cerejeira se quebravam após acumular uma grande quantidade de neve, os finos galhos de um salgueiro, conforme iam acumulando a neve, se curvavam deixando a neve cair e retornavam à posição inicial sem sofrer nenhum dano.

Verdade ou lenda, o fato é que esse princípio de “ceder para vencer” ou “teoria da não-resistência” foi adotado como filosofia das principais artes marciais japonesas.

Acredito que líderes e gestores das mais variadas áreas poderiam experimentar a aplicação dessa teoria em suas rotinas diárias. Garanto que muitos teriam bons resultados. 

Em minha trajetória de quase uma década e meia na área de vendas, acompanhei reuniões comerciais com gerentes adeptos à cultura “mão de ferro”, que deixavam no chinelo muitas cenas de sessão de tortura dos cinemas. Cobrar é inerente à função do gestor, porém orientar, treinar e motivar devem vir sempre na frente. 

Hoje, a competição em todos os segmentos de mercado está mais acirrada do que nunca e os profissionais precisam ser cada vez mais produtivos, assertivos e contundentes para gerar bons resultados às companhias.  Contudo, com uma geração de colaboradores “millennials” tão talentosos quanto insubordinados, rigidez ao extremo fará os gestores acabarem como os grossos galhos da cerejeira. 

O caminho da flexibilidade, não batendo de frente impondo ordens e métodos a todo instante, mas utilizando a “energia contrária” ao seu favor, potencializa significativamente o desempenho do gestor contemporâneo.

A clássica frase de autor desconhecido “liderar não é impor; é despertar nos outros a vontade de fazer” traduz bem o conceito de liderança e gestão do mundo moderno. Nesse cenário, a teoria da não-resistência parece ser a melhor tática para atingir os objetivos das empresas, conquistar a liderança das equipes e alcançar a vitória. 

É preciso, contudo, tomar cuidado para que esse modelo de gestão não seja confundido com “fraqueza” ou “falta de pulso”. Por não se tratar de uma ciência exata, esse método deve ser testado com cautela, pois um bom resultado também dependerá de como a equipe irá reagir. “Levar as ovelhas para beber a água é função do pastor. Beber ou não a água é opção de cada ovelha”. 

Assim, a palavra de ordem é “equilíbrio”. Palavra essa, que também é um dos princípios das artes marciais, que é fundamental para uma gestão de sucesso. Contudo, esse será um tema para um próximo artigo.

Fabio Seiti Tikazawa é publicitário, atuante há 13 anos na área comercial, faixa preta 3º dan de ju-jitsu tradicional e foi professor de artes marciais por 8 anos.

Leia também: